Ilustração: RSF / Gemini AI
O arranque de 2026 traz uma revolução tecnológica, numa grelha com carros totalmente novos. Com tantas variáveis é difícil prever um favorito – nem Verstappen gostou de conduzir o novo Red Bull.
Texto de Ricardo Simões Ferreira/DN
A Fórmula 1 regressa este fim de semana ao asfalto do Albert Park, em Melbourne, para inaugurar uma era de incerteza. Para já, só são certos os regressos de dois veteranos consagrados: Sergio Checo Pérez e Valtteri Bottas, mas mesmo este último traz consigo, logo para o primeiro fim de semana, uma pesada herança que irá prejudicar a si e à estreante equipa da Cadillac, apesar de esta não ter qualquer responsabilidade – uma penalização de cinco lugares.
O Grande Prémio da Austrália de 2026 é o marco zero de uma revolução técnica e desportiva sem precedentes, onde o ruído dos novos motores híbridos, agora alimentados por combustíveis 100% sustentáveis, tentará abafar as tensões geopolíticas que ecoam fora das pistas. Mas os espectadores irão ter de adaptar-se a coisas estranhas, como um sinal de cinco segundos antes de as cinco luzes encarnadas se apagarem para a partida do Grande Prémio e todos os carros acelerarem muito… para não irem a lado nenhum.
É que o procedimento de partida com as novas tecnologias impostas leva a que os motores a combustão tenham de ser acelerados para que os turbos atinjam a rotação ideal (o chamado spool up) antes do arranque propriamente dito. Sem o apoio do extinto motor elétrico MGU-H, esta é a única forma de garantir a pressão de ar necessária para que o motor térmico entregue a potência exigida no disparo inicial, o que terá um efeito, no mínimo, estranho. Na pré-época todos os pilotos passaram longos períodos a tentar adaptar-se ao processo.
Ainda no fator humano, no que pareceu ser uma decisão estratégica coletiva, as equipas optaram por uma grelha de pilotos experientes, apenas há um rookie, o britânico Arvid Lindblad, na Racing Bulls; de resto, todos os nomes presentes já têm, pelo menos, uma temporada completa “no bolso”. Uma escolha deliberada para navegar as águas desconhecidas do novo regulamento.
Pela primeira vez em mais de uma década, o paddock da F1 expandiu-se para acomodar 11 equipas. A transição da Sauber para a Audi (que adquiriu totalmente a escuderia suíça, apesar de o chassis se manter, pelo menos para já, construção Sauber) e a entrada da norte-americana Cadillac (através da parceria Andretti-Global Motors) representam um investimento massivo.
A Cadillac preferiu a segurança da experiência com o mexicano Pérez e com Bottas, mas este último traz-lhe um custo, devido a um anacronismo regulamentar. O piloto finlandês carrega uma penalização de cinco lugares na grelha de partida, uma “dívida” pendente do GP de Abu Dhabi de 2024. Como Bottas passou o ano de 2025 afastado da competição titular, a sanção ficou “congelada”.
Este revés coloca uma pressão imediata na equipa americana, que terá de desenhar uma estratégia de recuperação num circuito onde as ultrapassagens continuam a ser um desafio técnico.
A piorar (aparentemente) o cenário está o que parece ser uma prestação difícil das novas unidades de potência destes automóveis, que visam ser “puramente híbridos”, ou seja, ter metade da potência do motor de combustão e metade da unidade elétrica.
A grande mudança nos motores de 2026 é a eliminação do MGU-H, o sistema que, quando era necessário acelerava o turbo como motor elétrico e, noutras, recuperava energia dos gases e carregava a bateria. Isto significa que, no arranque, o desaparecimento do motor elétrico acoplado ao turbo vai ser notória.
Devido à sua extrema complexidade, e para ajudar as equipas novas a projetarem o seu trem motor – já que as equipas existentes já sabiam como fazê-lo – a FIA decidiu retirá-lo. Por isso (e porque reduzia o som do escape…) a decisão trouxe de volta o fenómeno do “turbo lag” e obrigou aos tais novos procedimentos de partida para garantir que o turbo tem pressão suficiente no momento do arranque.
Para compensar esta perda, o MGU-K (que recupera a energia cinética de acelerações e travagens) foi massivamente reforçado, passando de 120kW para 350kW, garantindo agora metade da potência total do monolugar. Esta enorme dependência elétrica obriga os pilotos a uma gestão milimétrica da bateria e à utilização de aerodinâmica ativa para reduzir o arrasto, evitando que o carro fique sem “energia” e perca velocidade subitamente a meio das retas mais longas.
Algo que é, na prática, problemático… Durante a pré-época, o tetracampeão mundial Max Verstappen – que detém os títulos de 2021 a 2024, sempre com a Red Bull – não poupou críticas, classificando o novo conceito como “anticorrida”, chegando mesmo a comparar os novos carros a uma “Fórmula E com esteroides”. O piloto neerlandês alerta que a necessidade de gerir o clipping (corte de potência elétrica no final das retas) torna os carros menos intuitivos, obrigando os pilotos a pensar mais na bateria do que na trajetória ideal das suas máquinas.
A revolução técnica de 2026 introduziu o conceito Nimble Car (Carro Ágil), focado em reduzir o entre-eixos para 3400mm e o peso para 768kg. No entanto, a grande preocupação mecânica reside na autonomia do sistema de overboost, que dá mais potência ao veículo, usado tanto para ultrapassagens (desde que esteja a menos de um segundo do carro da frente) como na defesa das mesmas ou em qualquer momento da corrida desde que tenha energia na bateria para isso.
Só que especialistas e pilotos criticam o facto de a bateria de 350kW ter uma taxa de descarga tão rápida que o overboost corre o risco de se esgotar muito antes do fim das retas. Em simulações, observou-se que o carro pode “bater numa parede invisível” a meio da reta: a potência cai subitamente e a velocidade de ponta estagna, tornando impossível completar uma ultrapassagem antes da zona de travagem.
Isto porque, ditam as novas regras, a potência fornecida pelo motor elétrico tem de ser diminuída acima dos 290kph em modo normal ou 337,5kph em modo override.
O que é igualmente problemático se pensarmos que este processo visa também ajudar a compensar o fim do DRS (Drag Reduction System) como o conhecemos nos últimos anos.
Isto não quer dizer que os carros não deixem de “abrir” a asa traseira desde que passem pelo ponto de deteção a menos de um segundo do carro da frente. Só que o sistema passa a ser mais complexo pois, pela primeira vez, é permitido que a asa da frente também tenha componentes ativos, contribuindo para o efeito aerodinâmico, sendo o período em que o piloto pode usar este sistema o mesmo em que pode, também, utilizar o overboost – na realidade, a única altura em que o carro de F1 tem toda a potência disponível.
Relativamente à aerodinâmica traseira, na pré-época, foi nas boxes da Ferrari que recaiu a atenção, pois a escuderia de Maranello trouxe um inesperado “Espeto” – um pilar central único que fez rodar toda a asa, que passou a comportar-se como uma asa de avião, elevando ligeiramente a parte de trás do carro.
Apesar de ter potenciais benefícios de velocidade, o sistema tem custos de fragilidade estrutural e de aumento de vibrações, pelo que o “patrão” Fred Vasseur enfrentará em Melbourne o dilema de correr, ou não, o risco ou de jogar pelo seguro.
O calendário de 2026 está sob vigilância máxima devido à instabilidade geopolítica internacional. Na realidade, ninguém pode hoje prever se será possível realizar o Grande Prémio do Bahrein, marcado para o fim de semana de 10 a 12 de abril… É neste cenário de alerta que o Autódromo Internacional do Algarve, em Portimão, bem como o traçado de Ímola (Autódromo Enzo e Dino Ferrari) surgem como as alternativas de “reserva” da Liberty Media, a dona da F1.
Portugal mantém-se em prontidão para preencher qualquer vaga que surja devido a cancelamentos por motivos de segurança, oferecendo um traçado técnico ideal para testar a agilidade destes novos carros.
O calendário de 2026 é uma prova de resistência para pilotos e mecânicos, com um total de 24 Grandes Prémios. Para aumentar o espetáculo e a receita, a FIA confirmou a manutenção de seis fins de semana com formato Sprint, onde a qualificação ocorre na sexta-feira e uma corrida curta no sábado antecede o evento principal de domingo.
As pistas selecionadas para acolher as Sprints em 2026 são Xangai (China), Miami (EUA), Spa-Francorchamps (Bélgica), Austin (EUA – COTA), Interlagos (Brasil), Lusail (Qatar).
A entrada da 11.ª equipa no “circo” obriga a uma mexida direta no formato da qualificação de sábado. Com 22 carros em pista, a luta para chegar à Q3 tornou-se estatisticamente mais difícil.
A primeira etapa (Q1), de 18 minutos, passa a eliminar seis pilotos, em vez de cinco, deixando 16 carros apurados. O mesmo acontece na Q2, que terá 15 minutos. A Q3 é que mantém o formato “antigo”, com 10 pilotos a discutir a pole position em 12 minutos.
Entre a incerteza do calendário, o arranque do “outro lado do mundo” será a primeira montra de como os novos bólides se comportam. Certo é que, para todos os pilotos, até para Fernando Alonso, que chega à Austrália com 423 Grandes Prémios iniciados, tanta mudança tecnológica faz com que tudo seja uma novidade. E ainda por cima o seu Aston Martin demonstrou, na pré-época, com tanta vibração, não estar na melhor forma…
McLaren (a equipa a abater): Com Lando Norris como campeão em título, a McLaren é a referência de estabilidade. Mas o australiano Oscar Piastri será sempre o primeiro adversário do britânico – e com muita sede de conseguir a primeira vitória em casa.
Red Bull (o fator Hadjar): A escuderia austríaca aposta no motor Red Bull-Ford Powertrains e espera que o francês Isack Hadjar seja o parceiro ideal para Verstappen, de forma a conseguir, por fim, não ser uma equipa de “um homem só”.
Ferrari (é este o seu ano?): A suposta “dupla de sonho” Charles Leclerc e Lewis Hamilton entra no seu segundo ano, focada em não cometer (mais) erros estratégicos. O tempo dirá, desde logo, se esta época tem mecânica para isso.
Mercedes (otimismo tecnológico): A marca alemã confia na experiência do britânico George Russell e no talento demonstrado no ano passado do italiano Kimi Antonelli para recuperar o domínio tecnológico que viu fugir-lhe debaixo das rodas nos últimos anos.
Texto originalmente publicado no suplemento DN Sports do Diário de Notícias.
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